O trabalho do assistente social em duas produções cinematográficas. A análise de Claudia Correia.

Postado por nelmaespindola | Postado em Diálogo: Serviço Social e as Mídias, Filmes, Reflexões | Postado dia 23-06-2010

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Assistente social e jornalista, Claudia Correia, articulista do blog Mídia e Questão Social, através da editoria Caleidoscópio Baiano publicou no último dia 21 de junho sua análise e crítica sobre duas produções cinematográficas - Preciosa e Caso 39 - que abordam o trabalho do assistente social. Transcrevo abaixo este artigo:

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Salvador, 21 de junho de 2010.

Editoria Caleidoscópio Baiano

O(a) assistente social na telona

Claudia Correia*

Recentemente, duas produções cinematográficas de grande repercussão e de gêneros diferentes, abordaram en passant o trabalho do assistente social.

Refiro-me aos filmes americanos “Preciosa” (drama) e “Caso 39”(suspense). Pelo conteúdo pedagógico, recomendei ambos aos meus alunos da disciplina Ética Profissional, da Escola de Serviço Social da UCSal, onde leciono há 16 anos. Meu objetivo era promover uma reflexão crítica sobre como a mídia contribui para construir uma representação social sobre o papel e a natureza do nosso trabalho.

Dando todos os descontos por se tratar de obras de ficção, no contexto do entretenimento e não uma tradicional cobertura jornalística sobre a realidade factual do cotidiano profissional, muitas questões interessantes puderam ser levantadas.

Quem teve a oportunidade de ver os filmes percebe claramente a complexidade da relação que se estabelece entre o assistente social e as demandas dos usuários dos serviços sociais, além de aspectos éticos vinculados ao sigilo profissional e à documentação técnica produzida em decorrência do acompanhamento dos chamados “casos sociais”.

Ambientado no Harlem ,em 1987, “Preciosa” conta a trajetória dramática de uma jovem de 16 anos, afro-americana, interpretada por Gabourey Sidibe. Vítima da violência sexual de seu pai, ela supera desafios para conquistar o direito à educação e à sua plena cidadania. Sua maior aliada nesta difícil empreitada é uma obstinada professora de uma escola alternativa, focada na autoestima e na diversidade cultural de jovens excluídos socialmente. O papel do assistente social é vivido por Grace High Tower. Na minha percepção, é passada ao público uma imagem profissional excessivamente burocrática, centrada no gerenciamento de “benefícios” assistenciais que Preciosa e sua conflitada família usufrui. A idéia mais forte que fica no enredo é que o assistente social atua como um mero fiscal da lei, definindo punições aos familiares infratores, no caso a mãe e o pai da protagonista. Não há uma intervenção mais aprofundada na dinâmica familiar, articulada ao contexto social. Prevalece na conduta profissional, uma avaliação moral sobre bons e maus comportamentos e não uma reflexão ética sobre as contradições sociais que servem de cenário à trama das relações familiares.

O “Caso 39”, muito próximo de um filme de terror com direito a mortes bizarras e muita tensão, já mostra uma outra face do nosso trabalho. A destemida assistente social Emily Jenkins (Renée Zelweger) banca a detetive e posa de heroína. Na sinopse, aparece o jargão : “ a idealista assistente social tenta salvar a criança dos pais abu.sivos..”. Diante do suposto sofrimento psíquico da pequena Lilith Sullivan, ameaçada pelos pais agressores, a corajosa Emily ultrapassa todos os limites do bom senso. Leva documentação de usuários da Vara de Família onde atua para sua casa, atua numa equipe interdisciplinar sem a mínima articulação e ainda torna-se refém da criança.

Óbvio que o olhar do público leigo sobre as duas versões reveladas através dos filmes sobre quem é de fato este personagem, o que faz e porque toma determinadas atitudes, não poderia ter o nosso viés.

O que me chama atenção é que a representação social que os meios de comunicação de massa e neste caso particular, o cinema, constrói, cria nebulosas fantasias sobre nosso processo de trabalho. Longe desta lógica reducionista da telona, não encarnamos nem o legalismo burocrático das instituições, nem o afã heróico de “salvadores da pátria”.

Hoje nosso ideário defende um projeto societário compartilhado com segmentos sociais que apostam no protagonismo da população, na força dos movimentos sociais, no controle social das políticas públicas, na defesa dos direitos humanos. Com limites e possibilidades, tecemos nosso cotidiano com senso crítico, enfrentando valores autoritários e conservadores, tão bem incorporados na vida das instituições. A instrumentalidade da nossa ação não se dissocia de um projeto ético político profissional sustentado na ampliação de direitos sociais e no combate a todas as formas de opressão e preconceito. Nosso olhar sobre a família não deve reproduzir uma moral conservadora, precisa contemplar suas novas configurações, o sistema de poder em que se insere.

A sensação de nos vermos retratados em personagens com os quais não nos identificamos, a partir de uma caricatura que não reflete nossa identidade como sujeitos sociais, causa um estranhamento desconcertante.

Por outro lado, nossa exposição midiática dá visibilidade, nos insere na cena da vida social, nos tira de uma existência coadjuvante, o que reforça nossos compromissos éticos. Que script queremos encenar neste enredo? Que aliados elegemos para contracenar e estabelecer alianças? Que responsabilidades assumimos diante do caos social? Com que clareza de objetivos e estratégias estamos representando nosso personagem na vida real?

Confesso que sai do cinema, nos dois filmes, com uma ambígua sensação: a de que precisamos compreender a intersubjetividade do nosso importante papel social e ao mesmo tempo em que devemos romper com os estereótipos que nos aprisionam. O desafio está lançado. Só não vale temer atuar no mar de tantas contradições, se omitir, se vitimizar.

Recomendo que vocês assistam os dois e reflitam sobre suas impressões.

*Claudia Correia é assistente social, jornalista, professora da ESSUCSal e Mestre em Planejamento Urbano e Regional.

Fonte: Blog Mídia e Questão Social

Comentários (6)

  1. Cristiane disse,

    Até hoje não assisti nenhum filme que mostre uma efetiva atuação do assistente social dentro dos principios eticos da profissão.
    Em “Preciosa” percebi a postura nada mais que fiscalizadora da assistente social.
    Em “O Messias do mal, a assistente social além de “dar uma de heroina”, colocando sua vida em risco, deixa se influenciar por sua experiencia pessoal, alem de não tentar tratar o assassino, buscando conhecer sua historia de vida.
    Em “Uma Questão de Honra”, a assistente social tira os filhos de um trabalhador sem instruções e leva para adoção, acreditando que ele não é capaz de cuidar dos filhos apos a morte da esposa. O que contribui para uma visão distorcida da profissão.

  2. sara disse,

    nossa deus com era dificio nessa epoca

  3. benedita disse,

    no filme preciosa tem duas assistente social.qual a diferenças entre as dua?

  4. Emanuel Freitas disse,

    Muito boa análise, parabéns!

    Importante mencionar também que trata-se de uma tradição ou projeto de intervenção pautado na experiência anglo-saxônica.
    Observo que movimentos no sentido que homogeneizar o projeto de intervenção a nível mundial, com foco em nossa representação social latino-americana tem sido constituídos. No entanto, ainda teremos que nos deparar por um bom tempo com as contradições colocadas pela sétima arte! Rs.

    Abraços.
    Emanuel Freitas
    Professor da FSSUnisa/ São Paulo.

  5. jocilene disse,

    smarttvhd.com.br da de 10 a 0 na Netflix

  6. thais disse,

    Ótima a sua analise, mas não podemos esquecer que os dois filmes são produções norte-americanas e Preciosa não é uma historia fictícia,e penso que tirar essa marca que a televisão e o cinema tem mostrado os profissionais uma tarefa difícil,mas que aos poucos pode ser mudada.

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